Meu primeiro poema da oficina de criação literária do Museu Lasar Segall. O tema: Água.
Tudo secou e deito em lençóis vazios
Meus olhos abrem e fecham sem dor
Secam ao sabor dos minutos que sussuram
Tudo secou.
Elas não conseguem despertar, nem existir
Não há nada dentro desses poços
Não despencam, não fluem, não molham meu rosto
A água de minhas lágrimas secou.
Não há mais nada que o vento possa levar
Não há nada mais sexo
Do que um amor que expirou
Uma mão que soltou.
E o céu abraça o mundo
E as gotas de chuva começam a tocar
A cantar uma música menos solitária.
Depois de contar algumas gotas
Fecho os olhos por fim
Um dia poderei chover toda a minha água novamente.
Avaliação da turma: muito discursivo e excessivamente sentimental.
Tuesday, August 31, 2010
Tuesday, May 18, 2010
Desastre sentimental
Eu achei que essas ruas poderiam me curar. Que a cada passo eu poderia criar novos sonhos. Que eu poderia plantar minhas lágrimas nos abraços de desconhecidos.
Eu achei que poderia me cegar com todas as luzes, que perderia o fôlego com a altura de cada arranha-céu. Os soluços deixariam de existir, de tragar minha pífia força de vontade.
Achei que poderia esconder meu passado nos bueiros dessa grande cidade. A verdade é que comecei essa caminhada cego, sentindo os sussurros dos carros que me ignoram velozes e esperando ser atropelado.
Não passo de um grande acidente, uma batida. Um desastre sentimental.
Eu achei que poderia me cegar com todas as luzes, que perderia o fôlego com a altura de cada arranha-céu. Os soluços deixariam de existir, de tragar minha pífia força de vontade.
Achei que poderia esconder meu passado nos bueiros dessa grande cidade. A verdade é que comecei essa caminhada cego, sentindo os sussurros dos carros que me ignoram velozes e esperando ser atropelado.
Não passo de um grande acidente, uma batida. Um desastre sentimental.
Monday, March 29, 2010
Excessos e dietas sentimentais
Nós somos ensinados a viver sob o signo da moderação e não apenas ditados pelas propagandas de cerveja – as únicas sugestões de parcimônia que eu tenho certeza que não sigo.
A técnica do controle ferrenho de nossos sentimentos vem sendo propagada por gerações nos mais diversos sistemas de medição. É preciso manter o equilíbrio, o balanço. Não é adequado explodir de alegria, ou afundar em depressão. Como medir exatamente o quanto sentir? Ou mais importante: Por que devemos mensurar o que sentimos?
Nessa nova etiqueta dos sentimentos, talvez o amor sofra mais com essas medidas eternamente cambiantes. Hoje em dia, as pessoas usam de tudo para definir quando realmente estão amando. O número de dias transcorridos, os grandes gestos presenciados... Tudo vira variáveis para definir quando o amor começa, e depois as pessoas começam a temer amar de menos.
Hoje em dia, 525.600 minutos ou estações de amor parecem um exagero. Ninguém pode ser pego na gafe de sentir demais ou de menos. É como se os sentimentos agora viessem com suas tabelas nutricionais e nós vivêssemos em constante dieta – nada de ultrapassar suas 1.500 calorias, mocinho!
Contra todo o meu bom julgamento, quebrei minha alimentação restrita e me refestelei em quatro dias de sentimentos dos mais diversos e sem moderação. Um início incrível com data de expiração: a fonte produtora de tais sensações voltaria para casa em dois dias – em outro estado, distante quilometricamente e financeiramente.
Agora os dados estão prestes a dar a sentença e uma pergunta – ou duas, como geralmente sempre acontece – emerge do lance: Quando confrontados com nossos excessos sentimentais, devemos apenas fechar a geladeira e retornar ao nosso regime? Ou achar novas formas de aprimorar nosso metabolismo?
A técnica do controle ferrenho de nossos sentimentos vem sendo propagada por gerações nos mais diversos sistemas de medição. É preciso manter o equilíbrio, o balanço. Não é adequado explodir de alegria, ou afundar em depressão. Como medir exatamente o quanto sentir? Ou mais importante: Por que devemos mensurar o que sentimos?
Nessa nova etiqueta dos sentimentos, talvez o amor sofra mais com essas medidas eternamente cambiantes. Hoje em dia, as pessoas usam de tudo para definir quando realmente estão amando. O número de dias transcorridos, os grandes gestos presenciados... Tudo vira variáveis para definir quando o amor começa, e depois as pessoas começam a temer amar de menos.
Hoje em dia, 525.600 minutos ou estações de amor parecem um exagero. Ninguém pode ser pego na gafe de sentir demais ou de menos. É como se os sentimentos agora viessem com suas tabelas nutricionais e nós vivêssemos em constante dieta – nada de ultrapassar suas 1.500 calorias, mocinho!
Contra todo o meu bom julgamento, quebrei minha alimentação restrita e me refestelei em quatro dias de sentimentos dos mais diversos e sem moderação. Um início incrível com data de expiração: a fonte produtora de tais sensações voltaria para casa em dois dias – em outro estado, distante quilometricamente e financeiramente.
Agora os dados estão prestes a dar a sentença e uma pergunta – ou duas, como geralmente sempre acontece – emerge do lance: Quando confrontados com nossos excessos sentimentais, devemos apenas fechar a geladeira e retornar ao nosso regime? Ou achar novas formas de aprimorar nosso metabolismo?
Tuesday, March 23, 2010
Rolhas solitárias
Abria e fechava o armário e não sabia ao certo o que fazer.
Tinha manias. Guardava as rolhas de todos os vinhos que tomara. Rolhas de namorados, rolhas de amantes e de amigos. Nenhuma rolha restara de sua solidão. E agora era dono de duas taças e uma coleção de pedaços roliços de cortiça... E saca-rolhas. Um para cada relacionamento que chegara e partira deixando apenas mais uma delas.
O último deixou duas taças e uma tristeza engasgada. Como poderiam ter tanta certeza, as duas?
Comprou por fim um chardonnay e o gelou na temperatura da apatia. Abriu o armário mais uma vez. “Sinto muito.” Pegou apenas uma delas. Separou as duas e quebrou a história que vinha antes e criou tudo que viria depois. Poderiam ser únicas as taças. Não precisavam ser duas, sempre.
Encheu a primeira vez e todas as seguintes. Bebeu devagar no frio de uma janela aberta e na calmaria de uma música baixa cantada por ondas radiofônicas. Terminou seu último gole e segurou sua nova rolha, leve e fria entre os dedos. Tinha duas taças, muitas rolhas e nenhuma lágrima.
Não entendia como, mas sabia que amaria de novo e teria outras rolhas como aquela na sua mão. Solitárias.
Sorriu.
Monday, October 05, 2009
Possibilidades ensolaradas
As horas se pregam às bordas da minha rotina, pesam e não deixam andar. Arrasto-me na esperança de uma ligação ao fim do dia. Um sorriso imaginário em uma voz eletrônica.
Durmo e acordo para um dia cinzento de possibilidades ensolaradas. E tudo recomeça e acaba em cada minuto, esperando por palavras trocadas.
A ansiedade comichando nos dedos, uma vontade de sorrir na vaga sensação de que a felicidade pode agora ser minha companheira.
Monday, May 19, 2008
Mapa invisível
Um mapa foi desenhado com a ponta do dedo e minhas costas, e em cada ponto de nossa viagem imaginária uma promessa foi feita e toda a estrada que vinha atrás cada vez que recebia um beijo de mentiras.
Colinas de lençóis pareciam nos distanciar e distância maior estava em seus dedos e em tudo que sentia. Acordei sozinho. Um cheiro de desesperança. Um olhar direcionado ao espelho e cuido que o vejo atrás de mim. Um cheiro, seu cheiro e o toque nos pontos que sumiram, um caminho que nunca percorremos juntos, cada um submerso em um piscar de olhos.
A porta não bateu, tudo tão silencioso. E nunca chegamos muito longe além de minhas costas nuas. Deito novamente. Falta algo, algo quando me escondo e sepulto minha cabeça e pensamento no travesseiro. Falta a dor da partida. Nós nunca chegamos a lugar algum.
Colinas de lençóis pareciam nos distanciar e distância maior estava em seus dedos e em tudo que sentia. Acordei sozinho. Um cheiro de desesperança. Um olhar direcionado ao espelho e cuido que o vejo atrás de mim. Um cheiro, seu cheiro e o toque nos pontos que sumiram, um caminho que nunca percorremos juntos, cada um submerso em um piscar de olhos.
A porta não bateu, tudo tão silencioso. E nunca chegamos muito longe além de minhas costas nuas. Deito novamente. Falta algo, algo quando me escondo e sepulto minha cabeça e pensamento no travesseiro. Falta a dor da partida. Nós nunca chegamos a lugar algum.
Thursday, May 15, 2008
Paixão sorrateira
Sempre tive um interesse insólito pela escuridão. Esse interesse brota internamente e vai cravando seus tentáculos no que restou de luz aqui dentro. Durmo em trevas e maior parte dos meus sonhos acontecem sem qualquer tipo de luminosidade. É um casulo fortemente selado. Durmo e amadureço meus pensamentos e desejos mais obscuros. Quando acordarem destruirão tudo pelo caminho e tragarei felicidades fugazes como as chamas que não sobrevivem ao meu toque.
Há um certo prazer em fazer algo que é considerado errado. Viver à margem na verdade é viver no centro. É chamar atenção por se um mau exemplo. Um espelho quebrado em que só os mais fracos tem coragem de se espelhar com afinco. E quando ando deixo minha marca e cada dia de sono cresço dentro da minha bolha e tudo continua escuro e escuro. Assim é mais fácil dormir.
Mas um dia resolvo tocar a massa escura ao meu redor e algo quebra. O toque veio de fora e um buraco se abre. Uma pequena fresta e a luz erradia como tudo aquilo que nunca tive direito de chamar de meu. Um mundo que não me pertence. E tudo explode.
Acordo sem bolhas e minha paixão pela escuridão encolhe, mas ainda vive ali. Sei que fala baixinho quando me banho da luz que está por todos os lados. Mas ela ainda está ali. E o que resta de mim além dessa dualidade pungente? Vivo na luz. Mas continuo apaixonado por tudo que se esconde aqui.
Há um certo prazer em fazer algo que é considerado errado. Viver à margem na verdade é viver no centro. É chamar atenção por se um mau exemplo. Um espelho quebrado em que só os mais fracos tem coragem de se espelhar com afinco. E quando ando deixo minha marca e cada dia de sono cresço dentro da minha bolha e tudo continua escuro e escuro. Assim é mais fácil dormir.
Mas um dia resolvo tocar a massa escura ao meu redor e algo quebra. O toque veio de fora e um buraco se abre. Uma pequena fresta e a luz erradia como tudo aquilo que nunca tive direito de chamar de meu. Um mundo que não me pertence. E tudo explode.
Acordo sem bolhas e minha paixão pela escuridão encolhe, mas ainda vive ali. Sei que fala baixinho quando me banho da luz que está por todos os lados. Mas ela ainda está ali. E o que resta de mim além dessa dualidade pungente? Vivo na luz. Mas continuo apaixonado por tudo que se esconde aqui.
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