Thursday, January 31, 2008

Nada de intimidades com a porta aberta

A vida tem muitos mistérios. Mas talvez o maior de todos eles seja o ser humano... E os seus próprios mistérios. Íntimos segredos. Medos íntimos.

Andar na rua, em um dia qualquer, pode se mostrar um verdadeiro exercício de criatividade. Na divagação de cada passo, no olhar trocado sem querer com alguém que nos passa sem nos tocar. Um sorriso que não se sabe o significado, lágrimas que escondem dores tão distantes. O ser humano é um grande mistério.

Imaginar o que cada um deles vive. Se vivem algo diferente do que vivemos. Se no final somos irmãos de vivências, ou estamos separados eternamente por segredos impossíveis de revelar.

Porque o mais cruel de tudo, de saber que os seres humanos são criaturas misteriosas, é saber que mesmo com uma troca de nomes, um aperto veemente de mãos, um abraço ou até um tórrido beijo de despedida, o ser humano sempre guardará alguns segredos.

Intimidade não implica verdade, não é mesmo?

Ele perguntou como estava.
Ele respondeu que estava bem.
Mas nada estava bem.
Ele perguntou quando poderiam se ver novamente.
Ele disse que deveriam combinar para algum dia nessa semana.
Mas ele sabia que nunca mais se veriam.
Ele criou esperanças.
Ele apenas fechou mais uma porta na esperança de outras ainda existissem para serem abertas.

Tuesday, January 29, 2008

Ninguém mora aqui

Deixo bilhetes de suicídio aos poucos. Ninguém realmente percebe. Mas eles estão ali. Fragmentos meus que vou deixando meticulosamente mesmo parecendo muito despretensioso. As palavras não são pronunciadas. Se o fizesse, pediriam para que eu ficasse. E nem ao certo sei quem pediria. Vou me deixando aos poucos como pele morta, arrancada com as unhas mão feitas, grandes, dedos habilidosos.

Os olhares que deixo de dar ao mundo são porque já me cansei de enxergar através. Como se tudo fosse fantasmas como eu. Durmo mais. E sempre quando acordo penso em formas de dormir. Os passos se tornam longos e as respirações mais planejadas porque não quero deixar tudo aqui com um soluço, com um espirro.

Vou me afastando e inventando desculpas para tocar os outros um pouco mais. Não falo nada, porém. Não quero mais ficar. Devo partir, o tempo não me quer mais aqui. E o drama me sobrepuja, e afundo, e olho para cima e apenas vejo bolhas. Meus dedos se esticam para tocar o fundo. Beijo areia e beijo cinzas.

Pedras. Pedras no bolso. Tudo invisível, tudo imperceptível guardado atrás dos olhos. Estou partindo aos poucos. Não consigo racionalizar, pois os passos parecem ter vindo antes mesmo de qualquer plano. Cada dia tomo mais um.

Nem todos os suicidas querem ajuda.