Abria e fechava o armário e não sabia ao certo o que fazer.
Tinha manias. Guardava as rolhas de todos os vinhos que tomara. Rolhas de namorados, rolhas de amantes e de amigos. Nenhuma rolha restara de sua solidão. E agora era dono de duas taças e uma coleção de pedaços roliços de cortiça... E saca-rolhas. Um para cada relacionamento que chegara e partira deixando apenas mais uma delas.
O último deixou duas taças e uma tristeza engasgada. Como poderiam ter tanta certeza, as duas?
Comprou por fim um chardonnay e o gelou na temperatura da apatia. Abriu o armário mais uma vez. “Sinto muito.” Pegou apenas uma delas. Separou as duas e quebrou a história que vinha antes e criou tudo que viria depois. Poderiam ser únicas as taças. Não precisavam ser duas, sempre.
Encheu a primeira vez e todas as seguintes. Bebeu devagar no frio de uma janela aberta e na calmaria de uma música baixa cantada por ondas radiofônicas. Terminou seu último gole e segurou sua nova rolha, leve e fria entre os dedos. Tinha duas taças, muitas rolhas e nenhuma lágrima.
Não entendia como, mas sabia que amaria de novo e teria outras rolhas como aquela na sua mão. Solitárias.
Sorriu.